cure for HIV

Um artigo recente avaliou e condensou os problemas de natureza ética associados à investigação da cura do VIH e a sua subsequente implementação.

Existem aproximadamente 36.7 milhões de pessoas que vivem com o vírus do VIH. Apesar da utilização do tratamento antiretrovírico (TAR) que ajudou a reduzir para 48% a mortalidade causada pelo vírus da SIDA nos últimos 11 anos, no ano de 2015 morreram aproximadamente 1.1 milhões de pessoas em todo o mundo, devido a complicações relacionadas com o VIH/SIDA. Visto que o TAR não é uma cura do VIH, este continua a ser uma doença potencialmente letal.

Em 2008, um paciente em Berlim foi o único paciente até hoje a ser curado do VIH. Até essa data a cura parecia ser impossível. Este paciente em Berlim despertou de novo o interesse na investigação de novas estratégias para a eliminação do VIH. Uma vez que o VIH é uma epidemia global, a cura deste vírus terá que ser efetiva, segura, económica e expansível.

Quando a investigação em modelos animais é transferida para modelos humanos, emergem problemas de natureza ética que têm que ser tidos em consideração na investigação para encontrar a cura do VIH. Será importante preencher a lacuna existente entre a investigação levada a cabo nos dias de hoje à procura de uma cura, e a implementação desta num ambiente clínico real a ter lugar no futuro.

Investigadores nos Estados Unidos da América reviram as emergentes curas do VIH e os problemas éticos associados à sua investigação. O objetivo desta revisão foi a identificação de quaisquer desafios éticos e de implementação que possam surgir aos investigadores, legisladores e políticos envolvidos. Esta revisão foi publicada em PLOS Medicine.

É necessária a antecipação de potenciais problemas éticos e de implementação que possam surgir durante a investigação e a sua aplicação médica prática. Investigadores desenharam no passado o enquadramento de investigação com o intuito de auxiliar futuras investigações e as potenciais ramificações éticas que possam surgir com o desenvolvimento científico e tecnológico. Uma vez que a cura do VIH será implementada em ambientes clínicos e influenciará a saúde pública, tal enquadramento é de grande importância para que a transição de investigação para intervenções reais seja feita de forma efetiva, segura e de acordo com os padrões éticos vigentes.

Problemas éticos ocorrentes com os modelos animais

Atualmente, a maioria da investigação da cura do VIH ocorre em ensaios pré-clínicos. Esta fase inclui testes que envolve genes, modelos animais, linhas celulares e a investigação das vias e potenciais mecanismos envolvidos na transmissão, infeção e reprodução do VIH. Os modelos animais utilizados na investigação do VIH permitiu aos cientistas estudar como o vírus permanece latente nas células e a persistência deste. Tal resultou em avanços significativos nos tratamentos do VIH. No entanto, emergem problemas éticos com os modelos animais.

Os projetos de experiências com modelos animais têm que ter uma base científica sólida para poderem ser utilizados de forma efetiva em modelos humanos. Os problemas éticos relacionados com os modelos animais não são exclusivos á investigação da cura do VIH. E uma vez que a maior parte da investigação está ainda em fase pré-clínica, é de notar os avanços alcançados e os recursos financeiros investidos.

Primeiros estudos com modelos humanos representam os maiores riscos

Abordagens experimentais da investigação da cura do VIH incluem terapia genética, transplante de células estaminais, novos medicamentos, ou medicamentos biológicos e fármacos reutilizáveis, isto é, um novo uso para um fármaco que foi já aprovado. Ao aplicar tais experiências nos estudos com modelos humanos podem surgir vários problemas éticos. Todos os esforços devem ser feitos para minimizar os riscos e maximizar os benefícios e o valor social adventos dos estudos clínicos. Sendo que a investigação para a cura do VIH nos dias de hoje é experimental, os riscos são elevados e o prospeto de benefícios clínicos individuais é reduzido. É por esta razão que os investigadores devem ser claros e informativos no processo de recruta de participantes. Para além disso, uma vez que a cura do VIH provavelmente requererá uma combinação de tratamentos, aumentarão não só os riscos associados com os estudos clínicos mas também os riscos do foro social, económico, legal e psicossocial.

Participantes dos estudos populacionais

Outro fator importante a ter em consideração na conceção de estudos clínicos em fase inicial é a seleção dos participantes. Esta deve ser feita de forma imparcial e igualitária incluindo participantes que representam a população que vive com VIH. No entanto, atualmente populações de países sub-desenvolvidos e em vias de desenvolvimento, e subgrupos (pessoas de cor, mulheres e indivíduos transexuais) estão sub-representados na investigação da cura do VIH. Esta sub-representação limita a possibilidade de extrapolar resultados significativos e pode afetar a descoberta de uma cura. É essencial aumentar os esforços para ultrapassar os obstáculos associados à implementação da investigação para a cura do VIH nestas populações e subgrupos sociais.

Alcance da cura

Hoje em dia existem muitos poucos ensaios clínicos em última fase para a investigação da cura do VIH, e biomarcardores limitados que preveem a eficácia das potenciais curas do VIH. É pois necessário o desenvolvimento de indicadores claros da eficácia da cura através dos marcadores biológicos que mostram a eliminação ou supressão do vírus. Os investigadores devem também determinar um período de tempo específico após o qual um paciente poderá ser dado como curado, tal como acontece com os pacientes de cancro em remissão que são considerados curados ao fim de 5 anos.

Distribuição de uma potencial cura

A implementação de uma cura do VIH como prática médica será difícil pois tal intervenção requer o consentimento dos profissionais de saúde. A cura terá que ser também económica e acessível. O preço de uma potencial cura é de extrema importância visto que grande parte da população que vive com VIH pertence a países sub desenvolvidos ou em desenvolvimento. Seria contra os princípios éticos negar o acesso à cura devido ao custo elevado desta. Para além disso, expansibilidade de uma potencial cura representa um grande desafio ético e de implementação que deve ser tido em conta devido ao grande número de pessoas que vive com VIH nos dias de hoje. Para assegurar a viabilidade desta a nível mundial, devem ser considerados vários fatores tais como a falta de profissionais de saúde e o financiamento e monitorização de qualidade.

Portanto, este artigo recente destaca alguns dos desafios na procura de uma cura do VIH que seja segura, efetiva, económica e de dimensão considerável. O capital social, financeiro e humano que tem sido e continua a ser investido é extremamente elevado e é fundamental a valorização dos problemas éticos e de implementação resultantes. São também cruciais os esforços contínuos por parte dos investigadores e acionistas para assegurar a resolução dos potenciais desafios que poderão surgir com a cura do VIH.

 

Escrito por Lacey Hizartzidis, PhD
Traduzido por Ângela Carvalho, PgC

Referências:

Dubé K, Sylla L, Dee L, Taylor J, Evans D, Bruton CD, Gilberston A, Gralinski L, Brown B, Skinner A, Weiner BJ, Greene SB, Corneli A, Adimora AA, Tucker JD,Rennie S. Research on HIV cure: Mapping the ethics landscape. PLoS Med. 2017 Dec 8;14(12):e1002470. doi: 10.1371/journal.pmed.1002470. eCollection 2017 Dec.

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